sexta-feira, 6 de maio de 2011

OS SALMOS

        Salmos (psalmus) é a tradução do termo hebraico que quer dizer LOUVORES. Cânticos destinados principalmente ao uso litúrgico do templo de Jerusalém. O Saltério era o livro de oração dos antigos judeus, tornou-se o deleite espiritual para os cristãos, depois de tê-lo sido para o próprio Jesus Cristo. Os Salmos apresentam uma incomparável profundidade religiosa, "todas as cordas do sentimento religioso são neles dedilhadas". Torna-se, assim, o Saltério, o livro de oração da Igreja e da alma cristã. (Bíblia Sagrada Ave-Maria)
        A oração dos Salmos educam para a confiança em Deus, como parte de sua pedagogia onde o Espírito, autor principal da Escritura, prepara desejoso o que há de vir, o tempo do Messias. Os Salmos, a Lei e os Profetas, tecem a liturgia do povo eleito lembrando as bênções divinas e respondendo a estas com louvor e ação de graças. No Saltério a Palavra de Deus se torna Oração do homem. "O mesmo Espírito inspira a obra de Deus e a resposta do homem. Cristo unirá uma e outra. Nele, os Salmos nos ensinam continuamente a orar". (Catecismo da Igreja Católica - CIC)
       Cristo está presente nas ações liturgicas para levar a efeito a sua obra de salvação. Assim, é Ele que se oferece em sacrifício, pelo ministério dos sacerdotes, e que se dá como alimento sob as espécies eucarísticas; é Cristo mesmo que batiza; é Ele quem fala quando se lêem as Sagradas Escrituras nas Igrejas; "presente está, finalmente, quando a igreja reza e salmodia...". (CIC, 1088)
        A composição e canto dos Salmos, acompanhados por intrumentos musicais nas celebrações litúrgicas, aparecem desde a antiga aliança. "A Igreja continua a desenvolver esta tradição: Recitai 'uns com os outros salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando ao Senhor em vosso coração' (Ef 5,19). 'Quem canta reza duas vezes'". (CIC, 1156)
        É certo que desde o começo havia cantores. As festas de Iahweh eram celebradas com danças e coros (Jz 21,19-21; 2Sm 6,5.16). Em Am 5,23, os sacrifícios eram acompanhados de cânticos; o palácio real tinha seus cantores no tempo de Davi, conforme 2Sm 19,36. É evidente também a riqueza religiosa dos salmos, como coleção de cânticos desde Israel. Nos Salmos "o próprio Deus inspirou os sentimentos que seus filhos devem ter a seu respeito e as palavras de que devem servir-se ao se dirigirem a ele. Foram recitados por Jesus e por Maria, pelos Apóstolos e pelos primeiros mártires. A Igreja cristã fez deles, sem alteração, sua prece oficial". O grito de louvor, de súplica e de ação de graças, arrancados dos salmistas diante de suas realidades e experiências pessoais de sua época, tem caráter universal, expressando a atitude que todos devem ter diante de Deus. (Bíblia de jerusalém)
        Na Nova Aliança, porém, o sentido se enriquece. O grito de louvor, a súplica, a ação de graças do salmista se tornam mais ardentes, pois a Última Ceia, a Cruz e a Ressureição, o revelaram o infinito amor de Deus, que o resgatou pelo sangue de seu Filho e lhe infundiu seu Santo Espírito. As esperanças cantadas pelo salmista se realizaram. Eis que o Senhor Deus cumpriu sua promessa; o Messias veio, habitou entre nós; vive e reina para sempre e sua glória não terá fim; está entre nós e em nós; e por isso cantamos alegres e fervorosos o seu louvor.
        Na celebração da Vigília Pascal, uma das mais belas celebrações de nossa Igreja Católica, entoamos nosso grito de louvor, de súplica e de ação de graças a Deus que enviou o seu Espírito, nos guardou, fez brilhar sua glória, nos livrou, nos encheu de alegria, nos deu Palavras de vida eterna e fez nossa alma suspirar por Ele, como a corça suspira pelas águas. 

        Na sequência, os sete salmos da Vigília Pascal.
  



























 





 





Por Dirceu Duarte

domingo, 1 de maio de 2011

II DOMINGO DA PÁSCOA (por Pe Agostinho Cruz)

Arquidiocese de Belém
Paróquia São João Batista e Nossa Senhora das Graças

II Domingo da Páscoa: Divina Misericórdia e Beatificação de João Paulo II
Dia do trabalhador, Abertura do Mês de Maio

Quero, antes de mais nada, recordar a beleza e o fascínio do renovado encontro dos apóstolos com o Senhor Jesus, vivo e ressuscitado, e que também deve ser o nosso encontro pessoal. A experiência dos apóstolos, em especial de Tomé, foi uma experiência de ouvir, ver, tocar e contemplar o Ressuscitado. É um convite alegre para redescobrirmos a beleza inigualável do encontro pessoal com o Senhor, onde nosso coração deve ser dilatado sempre mais por tão grande amor que Deus tem demonstrado para conosco, fazendo-nos seus filhos pelo batismo.
Não existe prioridade maior para nós, sejamos sacerdotes, religiosos (as), consagrados (as) e batizados do que reabrir nosso interior para que Deus tenha acesso, onde Ele possa falar a nós como amigos e comunicar o seu amor sempre fiel.

“Conhecidíssima e até proverbial é a cena do (Apóstolo) Tomé incrédulo, realizada oito dias depois da Páscoa. Num primeiro momento, não acreditou que Jesus tivesse aparecido em sua ausência e disse: ‘Se eu não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, e se eu não colocar o meu dedo na marca dos pregos, e se eu não colocar a minha mão na ferida dele, eu não acreditarei’” (Jo 20, 25). Do fundo destas palavras emerge a convicção de que Jesus é reconhecível não apenas por seu rosto quanto por suas feridas. Tomé considera que as marcas significativas da identidade de Jesus agora são, antes de tudo, suas feridas, nas quais se revela até que ponto Ele nos amou. Nisso o Apóstolo não se equivoca”[1].

“Estenda aqui o seu dedo e veja as minhas mãos. Estenda a sua mão e toque a minha ferida. Não seja incrédulo, mas tenha fé” (Jo 20,27).  Tomé diante do Senhor reage com a mais profunda e maravilhosa profissão de fé do Novo Testamento: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28).  Nós, batizados em Cristo, devemos ser imitadores do Apóstolo Tomé, não na sua incredulidade, mas no seu reconhecimento de Jesus, como Senhor e Deus, como o Cristo e Salvador. Não permitamos que as nossas inquietações e preocupações tomem conta de nossa fé, roubem de nosso coração o desejo de ver o Senhor.
Santo Agostinho, o grande bispo de Hipona e Doutor da Graça, fez um belo comentário sobre este fato: “Tomé via e tocava o homem, mas confessava a sua fé em Deus, que não via e nem tocava. Mas aquilo que via e tocava o induzia a crer naquilo de que até naquele momento duvidava” (In Iohann, 121, 5).

São João neste seu relato pascal continua com a última palavra de Jesus a Tomé: “Você acreditou porque viu? Felizes os que acreditam sem terem visto!” (Jo 20, 29). O que Jesus quis dizer a Tomé e às gerações futuras dos crentes? O que o Senhor quer dizer a nós, aqui e agora nesta celebração da Eucaristia? Nosso Senhor definiu um princípio fundamental e fundante para todos nós cristãos que viemos depois de Tomé, quis dizer-nos que somos felizes, benditos porque acreditamos sem ter que fazer a experiência empírica, palpável do Senhor, apenas acreditamos na fé da Igreja, no testemunho dos Apóstolos. São Tomás de Aquino, o grande teólogo, aprofundou essa frase do Senhor, e fez chegar até nós, a fim de que firmemos com segurança nossa fé; eis o que ele nos transmite: “Merece muito mais quem crê sem ver do que quem crê vendo” (In Iohann, XX lectio VI, 2566).

Que importância tem para nós essa experiência de fé pascal do Apóstolo Tomé? Primeiro, porque nos consola de nossa insegurança; segundo, porque demonstra que toda dúvida pode desembocar numa saída luminosa livre de qualquer incerteza; e, por último, porque as palavras que lhe dirige Jesus nos lembram o verdadeiro sentido da fé madura e nos animam a continuar, apesar das dificuldades, em nosso caminho de adesão a Ele.

O Apóstolo Pedro em sua Carta assegura-nos de que é “graças à fé, e pelo poder de Deus, vós fostes guardados para a salvação que deve manifestar-se nos últimos tempos” (1 Pd 1, 5). A fé é um dom; nós não nos damos a fé, pelo contrário, a recebemos; recebemos da Igreja. Sim, a Igreja é a Mãe que gera e nos educa na fé de seu Senhor e nosso Salvador. Eis o testemunho da Igreja que “confessa , incessantemente, a cada geração que Ele, ‘com toda a sua presença e manifestação da sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a sua morte e gloriosa ressurreição e, enfim, com o envio do Espírito de Verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a Revelação” (Conc. Ecum. Vat. II, Consti. Dogm. Sobre a Revelação divina Dei Verbum, 2).

A Igreja tem ciência que seu caminho não é diferente do caminho de seu Senhor e Mestre. A Igreja é a continuadora da ação e Cristo no meio dos homens. Ela prolonga a sua ação salvífica. A verdadeira Igreja de Cristo é alicerçada na fé apostólica, daqueles homens escolhidos por Cristo para formarem o novo povo de Israel, não mais sobre as doze tribos do Antigo Testamento, mas sobre doze homens como nós, simples, mas desejosos de Deus. É deste grupo, ou seja, da Igreja nascente, que é fruto da Páscoa do Senhor, que o Livro dos Atos dos Apóstolos transmite-nos o testemunho, de como agiam por graça e força do Senhor: “Eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2, 42). Estes elementos são constitutivos da Eucaristia que hoje celebramos; nos garantem com fidelidade como a Igreja nasceu e como se organizava para celebrar a Ceia de seu Senhor. Amados, fazemos nesta Eucaristia aquilo que os Apóstolos nos transmitiram: Estamos neste momento ouvindo o ensinamento dos Apóstolos acerca de Jesus e de sua Igreja; estamos em comunhão uns com os outros, por isso, rezamos na oração eucarística: fazei de nós um só corpo e um só espírito; a fração do pão que logo mais iremos nos aproximar para receber é o Corpo do Senhor dado a nós como alimento; e as orações que elevamos junto como nosso coração a Deus. Continuemos, na fé a viver este mistério de amor, fruto da Páscoa de Nosso Senhor, que é a Eucaristia, seu Corpo dado para a vida do mundo.

Amados irmãos e irmãs, peçamos ao Senhor ressuscitado que reacenda a nossa fé durante esse tempo pascal, aumentando em nós a sua graça, a fim de que compreendamos melhor a força santificadora do batismo que recebemos, e que nos lavou, dando-nos por seu Espírito a vida nova em seu Sangue. E ao recebermos seu Corpo e Sangue, exclamemos, no íntimo de nosso coração: “Meu Senhor e meu Deus!”.




[1] Bento XVI. Os Apóstolos e os primeiros discípulos de Cristo. São Paulo: Planeta, p. 94.


Por Pe Agostinho Cruz


JESUS, EU CONFIO EM VÓS!

Fico pensando sobre Deus e me vêm inúmeras questões a respeito de Seu relacionamento com o ser humano. Isso porque há poucos dias estávamos mergulhados nos mistérios da redenção: Jesus, o filho do Deus altíssimo aceitou ser entregue por amor à humanidade. Agora, no domingo próximo celebraremos a Festa da Divina Misericórdia, fico pensando o que mais Deus tem para nós?

Criou-nos a Sua imagem e semelhança, nos cumulou de dons e capacidades somente reservadas aos seres humanos; preparou, após a desobediência de Adão e Eva, um plano de salvação que envolveu patriarcas, profetas e mártires; na plenitude dos tempos deu seu filho à humilhação e morte de cruz para nos salvar e santificar; enviou homens e mulheres santas para passar também por agruras neste mundo e nos trazer mensagens de esperança e apelos de mudança... Mas para que tudo isso?

Deixando um pouco esse questionamento pensemos acerca de um desses homens que Deus nos enviou: O Papá João Paulo II. As últimas lembranças que trago dele é de um homem frágil, cujas mãos trêmulas e cabeça baixa, demonstravam debilidade. Mas seria mesmo essa a verdade sobre aquele que ficou conhecido como o peregrino do amor? Sabemos que não. O Santo Padre foi um dos enviados por Deus com a missão de levar a Boa Nova a todos os povos e assim o fez, com amor e zelo. O futuro beato era sem dúvida um homem de oração. Imagino-o em oração contemplativa e profunda, daquelas que nos elevam e ponto de ouvirmos nitidamente a voz de Nosso Senhor ao coração. Podemos constatar isso na forma como vivia sua missão.

Outra lembrança que trago, bem mais marcante que a aparente fragilidade, é a de suas chegadas aos países que visitava em peregrinação: ajoelhava-se e beijava o solo. Nos tempos de Jesus o beijo era um símbolo de fraternidade e de respeito, os convidados a um banquete eram beijados à entrada da casa – cf. Lucas 7. 45; os antigos cristãos se saudavam com um beijo – cf. Romanos 16.16. Um dos que não esquecemos foi o beijo de Judas, o beijo da traição, tornou-se tanto mais vil e odioso devido ao fato de um ato de amor fraternal ter sido usado como ato de deslealdade – cf. Mateus 26. 49. João Paulo II beijava o solo que visitava em sinal de fraternidade, humildade e respeito. Ouso compará-lo ao beijo que os padres dão no altar do sacrifício, pois Deus fez o nosso planeta e, assim, todo solo é santo, porque d’Ele é criação e de onde o homem retira seu sustento. O beijo de João Paulo era o beijo de adesão à cruz de Cristo, fazendo a Páscoa durante toda sua vida sacerdotal.

João Paulo II foi e sempre será retrato da misericórdia de Deus, sua vida nos inspira bondade, humildade e serviço ao plano salvífico de Deus para a humanidade. A partir disso, podemos voltar a pensar sobre os questionamentos iniciais que nos instigam nesta reflexão: o que mais Deus tem para nós?

Em Maio de 2000, o Papa João Paulo II, instituiu a Festa da Divina Misericórdia para toda a Igreja, decretando que a partir de então o segundo Domingo da Páscoa passaria a se chamar Domingo da Divina Misericórdia. Vemos nesta inspiração divina mais uma demonstração do amor de Deus por nós e que toda a história da salvação está marcada pela revelação de um Deus que não pactua com o mal (o pecado, a soberba, a mentira, o ódio etc.), mas que vence o mal pelo bem, ou seja, com seu amor misericordioso para com o pecador, com seu coração paterno que se “contorce” pelos filhos (Os. 11,8).
 Jesus, o Cordeiro de Deus, agora glorioso, vem a nós jorrando água e sangue de seu santo coração. E, na promessa à  Irmã Faustina, uma humilde religiosa polonesa, diz: "Neste dia, estão abertas as entranhas da minha Misericórdia. Derramo todo um mar de graças sobre as almas que se aproximam da fonte da Minha Misericórdia. A alma que se confessar e comungar alcançará o perdão das penas e culpas. Neste dia, estão abertas todas as comportas divinas pelas quais fluem as graças. Que nenhuma alma tenha medo de mim.”

Não bastasse o sacrifício de Jesus, mas uma vez o amor misericordioso de Deus é derramado de forma generosa sobre a humanidade, trazendo aos pecadores, cujas almas agonizam em um aparente bem estar, nova oportunidade de salvação, quem sabe a última: Minha filha, fala ao mundo da Minha misericórdia, que toda a humanidade conheça a Minha insondável misericórdia. Este é o sinal para os últimos tempos; depois dele virá o dia da justiça (D. 848); “Estou dando à Humanidade a última tábua da salvação, isto é, o refúgio na Minha misericórdia (D. 998; cf. 1228).
Eis o que Deus ainda tem e sempre terá por nós: misericórdia. Não desiste de nós porque nos ama e nos diz como devemos nos derramar neste amor. Suplicar-lhe que nos lave nesse mar de amor generoso. De nossa parte cabe pautar nossas vidas à semelhança de Maria Santíssima e de João Paulo II, servos fieis e continuamente unidos a Deus, em súplica pela humanidade. Sejamos vigilantes e que a mensagem da divina misericórdia nos ajude a viver em constante processo de reconciliação com Deus!


"Nenhum de nós poderá esquecer que no último domingo de Páscoa de sua vida, o Santo Padre, marcado pelo sofrimento, foi até a janela do Palácio Apostólico Vaticano e deu a bênção ‘Urbi et Orbi’ pela última vez. Podemos estar seguros de que nosso amado Papa está agora na janela da casa do Pai, nos vê e abençoa. Sim, abençoe-nos, Santo Padre”.  (Bento XVI)

Jesus, eu confio em Vós!




Por Dora Adriana Cunha

segunda-feira, 25 de abril de 2011

HOMILIA DA SEXTA-FEIRA: PAIXÃO DO SENHOR‏ (Pe Agostinho Cruz)

Pe Agostinho Cruz
(Paróquia São João Batista e N. S. das Graças
Icoaraci - Belém - Pará)
PAIXÃO DO SENHOR

Os Padres disseram que o homem está colocado no ponto de intersecção de dois campos de gravidade. Temos, por um lado, a força de gravidade que puxa para baixo: para o egoísmo, para a mentira e para o mal; a gravidade que nos rebaixa e afasta da altura de Deus. Por outro lado, há a força de gravidade do amor de Deus: sabermo-nos amados por Deus e a resposta do nosso amor puxa-nos para o alto. O homem encontra-se no meio desta dupla força de gravidade, e tudo depende de conseguir livrar-se do campo de gravidade do mal e ficar livre para se deixar atrair totalmente pela força de gravidade de Deus, que nos torna verdadeiros, nos eleva, nos dá a verdadeira liberdade.[1]
Depois da Liturgia da Palavra e logo no início da Oração Eucarística, durante a qual o Senhor entra no meio de nós, a Igreja dirige-nos este convite: «Sursum corda – corações ao alto!». O coração, segundo a concepção bíblica e na visão dos Padres, é aquele centro do homem onde se unem o intelecto, a vontade e o sentimento, o corpo e a alma; é aquele centro, onde o espírito se torna corpo e o corpo se torna espírito, onde vontade, sentimento e intelecto se unem no conhecimento de Deus e no amor a Ele. Este «coração» deve ser elevado. Mas, também aqui, sozinhos somos demasiado frágeis para elevar o nosso coração até à altura de Deus; não somos capazes disso. É precisamente a soberba de o podermos fazer sozinhos que nos puxa para baixo e afasta de Deus. O próprio Deus tem de puxar-nos para o alto; e foi isto que Cristo começou a fazer na Cruz. Desceu até à humilhação extrema da existência humana, a fim de nos puxar para o alto rumo a Ele, rumo ao Deus vivo. Jesus humilhou-Se. Só assim podia ser superada a nossa soberba: a humildade de Deus é a forma extrema do seu amor, e este amor humilde atrai para o alto.
«Que necessidade havia para que o Filho de Deus sofresse por nós? Uma necessidade grande e, por assim dizer, dupla: para remédio contra o pecado e para exemplo daquilo que devemos fazer.
Foi em primeiro lugar um remédio, porque na paixão de Cristo encontramos remédio para todos os males em que incorremos por causa dos nossos pecados.

Mas não é menor a utilidade que tem como exemplo. Na verdade, a paixão de Cristo é suficiente para orientar toda a nossa vida. Quem quiser viver em perfeição, basta que despreze o que Cristo desprezou na Cruz e deseje o que Ele desejou. Nenhum exemplo de virtude está ausente da Cruz.

Se queres um exemplo de caridade: Não há maior prova de amor do que dar a vida pelos seus amigos. Assim fez Cristo na Cruz. E se Ele deu a vida por nós, não devemos considerar penoso qualquer mal que tenhamos de sofrer por Ele.

Se procuras um exemplo de paciência, encontras na Cruz o mais excelente. Reconhece-se uma grande paciência em duas circunstâncias: quando alguém suporta com serenidade grandes sofrimentos, ou quando pode evitar os sofrimentos e não os evita. Ora Cristo suportou na Cruz grandes sofrimentos, e com grande serenidade, porque sofrendo não ameaçava; e como ovelha levada ao matadouro, não abriu a boca. É grande, portanto a paciência de Cristo na Cruz: corramos com paciência à prova que nos é proposta, pondo os olhos em Jesus, autor e consumador da fé, que em lugar da alegria que Lhe era proposta suportou a Cruz, desprezando-lhe a ignomínia.

Se queres um exemplo de humildade, olha para o crucifixo: Deus quis ser julgado sob Pôncio Pilatos e morrer.»[2]

Efeitos da Paixão de Cristo:
“Por sua Paixão, Cristo livrou-nos de Satanás e do pecado. Ele nos mereceu a vida no Espírito Santo. Sua graça restaura o que o pecado deteriorou em nós” (CIC, 1708).

“A justificação nos foi merecida pela paixão de Cristo, que se ofereceu na cruz como hóstia viva, santa e agradável a Deus, e cujo sangue se tornou instrumento de propiciação pelos pecados de toda a humanidade. (...) Cristo é o dom da vida eterna” (CIC 1992).


Amados irmãos e irmãs, “a cruz, à luz da ressurreição, é a autoglorificação do amor de Deus no mundo, por meio do qual foi tirado o pecado e vencido o mal” (H. Von Balthasar).

A glória que se manifesta no Calvário é diferente de toda glória e vai além de qualquer glória. (...) Exatamente por essa sua capacidade de doação além de todo limite, no evento da Cruz Jesus se torna, por excelência, o sacramento da beleza, que, em sua verdade mais profunda, é esplendor de amor.

A glória de Jesus que acontece no Calvário, no ato de sua Páscoa, entrega definitiva de Si ao Pai em favor dos homens todos, realiza-se no elevar-se de Jesus: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12, 33); é um elevar de atração, onde ao ser suspenso na Cruz, Cristo entroniza no Reino de Deus a humanidade que já jazia na sombra da morte, por causa de seus pecados.

No evento único da cruz, manifesta a grandeza e o poder salvífico de Jesus. Não sejamos que nem os judeus, que não compreenderam a íntima relação que liga Jesus a Deus: “Quando tiverdes elevado o Filho do Homem, então sabereis que eu sou e que nada faço por mim mesmo, mas falo como me ensinou o Pai”.

Somente no sacrifício da Cruz podemos conhecer Jesus de uma maneira nova e corrigir nossas opções. Será que vamos Ficar, por causa de enraizamento do pecado em nosso coração, “crucifica-O”? O trairemos, como Judas fez, mesmo tendo experimentado todo o amor do Senhor? Ou nos acovardaremos, quando nos for pedido um testemunho, como Pedro que negou conhecer e ser discípulo do Senhor na sua hora mais difícil? Seremos nós a encarnar em nosso ser as atitudes mesquinhas de Pôncio Pilatos, esquivando-se da responsabilidade pela vida do outro?

Amados irmãos, são tantas pessoas envolvidas nesta cena da Paixão, cada um com sua história, com seu projeto de vida; todos, de uma maneira ou de outra, sentiram-se atraídas por Nosso Senhor. Como eles, também nós, devemos fazer as nossas escolhas, decidirmo-nos por Deus, por sua Igreja que fez nascer do lado transpassado de seu Filho, a semelhança de Adão. No sono de Adão, Deus tirou-lhe de seu lado sua mulher, Eva; numa igual semelhança, no sono de Cristo, ou seja em sua morte, Deus cria a sua esposa, a Igreja, qual nova Eva a nascer do Novo Adão.

Eis o lenho da cruz da qual pendeu a salvação do mundo!

Mesmo depois de testemunharem que o Senhor está morto, seus amigos, aqueles que Ele cativou, não o abandonaram a triste sorte, vieram cuidar de seu corpo: “tomaram o corpo de Jesus e o envolveram-no, com aromas, em faixas de linho”.

O lugar da sepultura de Jesus remete à nossa origem, ao princípio da criação: O jardim onde sepultaram o Senhor, é uma clara ao Jardim do Gênesis, onde o primeiro homem, Adão, vivia; eis no jardim, na sua sepultura o Cristo, novo Adão a recriar todas as coisas para Deus seu Pai. Ele, pelo poder de sua cruz, restaura a criação inteira.

Amados irmãos e irmãs, todo este ato de Paixão deve alegrar nosso pobre e pequeno coração, pois desde o princípio Deus tem se voltado para nós, e agora, em Cristo morto na cruz, sepultado e que irá ressuscitar no terceiro dia, encontramos a irrevogabilidade da ação amorosa de Deus.


[1] Enxerto da Homilia do Domingo de Ramos proferida pelo Papa Bento XVI, 17de abril de 2011.
[2]Collatio 6 super Credo in Deum - SÃO TOMÁS DE AQUINO



sexta-feira, 22 de abril de 2011

FÉ E CONSTÂNCIA

No decorrer desta santa semana vivenciamos com a Igreja os últimos acontecimentos antes do maior triunfo que a humanidade já teve notícia, ponto culminante de nossa fé: a Páscoa, a qual não deve ser vista como um acontecimento final, mas como o início de um momento novo.

A liturgia deste tempo nos oferece a oportunidade de celebrarmos e sentirmos com Jesus toda a mística de Sua paixão, morte e ressurreição. Desde o Domingo de Ramos, passando pala celebração da última Ceia, pelo tríduo pascal, adoração à Santa Eucaristia, celebração da Paixão do Senhor, pelo silêncio e recolhimento do Sábado Santo para, finalmente, culminar na explosão da vigília pascal, onde entoaremos com fé forte e renovada o canto de Aleluia. A liturgia católica, fruto da sabedoria do Espírito Santo, nos leva a transcender e atingir o que é divino, lembrando-nos de que somos frágeis e pecadores, por isso mesmo é que necessitamos dessa aproximação com o Senhor, que nos espera na vivência de seus mistérios.

Os mistérios que envolveram os últimos momentos de Jesus na terra formam a mais pura demonstração de amor: o Deus que se faz homem e decide ser humilhado, crucificado e agonizar sentindo dores inimagináveis que o levaram à morte. Que outra razão senão o amor explicaria tal escolha? É isso mesmo, Deus ofereceu seu filho por amor à criatura feita à Sua “imagem e semelhança” (Gen. 1,26). Viver bem a Semana Santa e fazer a Páscoa é criar consciência desse amor; um amor que redime, santifica e salva. É buscar a conversão, simples e verdadeira, pois só assim honraremos tamanho amor e daremos sentido a nossa existência e ao sacrifício de Jesus na cruz.     

Carregar a cruz não foi tarefa fácil, mas Jesus já a fez e nos mostrou o caminho da redenção. De nossa parte cabe buscar n’Ele a força, entregar nossas dores e desalentos numa atitude de decisão, como a que ele fez por nossa salvação. Precisamos ter constância em nossa decisão. O beijo na cruz na Sexta-feira deve ser um beijo pautado no amor decidido, convicto, pois ainda que sejamos fracos e vacilantes, Deus é maior e o sacrifício de Seu filho está sempre diante de nós para mostrar a direção.  

Fazer a páscoa é exatamente isso, um beijo de adesão à cruz de Cristo; é carregar nossa própria cruz sabendo que Ele a ilumina; é saber que com Ele morreremos para com Ele ressuscitarmos. Morreremos ao pecado para ressuscitarmos para uma vida nova. O sacrifício de Jesus nos mostra que “a força divisória do mundo não é a guerra, mas o amor” e, por isso, devemos buscar a constância no amor e na conversão.

“A alma que busca a Deus e permanece em seus desejos e comodismo, busca-o de noite, e, portanto, não o encontrará. Mas quem o busca através das obras e exercícios da virtude, deixando de lado seus gostos e prazeres, certamente o encontrará, pois o busca de dia.” (São João da Cruz)


Feliz Páscoa!

Por Dora Adriana Cunha